História

Disposição dos continentes há 50 milhões de anos (Eoceno).
A história da Mata Atlântica tem seu início há 50 milhões de anos, quando o continente sul-americano já era uma massa terra de isolada e suas formas de vida passaram a evoluir localmente, sem transtornos geológicos adicionais. Ao longo desse tempo, no período Quaternário, a floresta passou por períodos de fragmentações e expansões, em decorrências das inúmeras eras Glaciais que ocorreram durante esse período. Nos períodos em que o planeta se encontrava com temperaturas mais baixas, os refúgios eram centros em que a biodiversidade florestal evoluía de forma isolada. Essa hipótese pode explicar a enorme diversidade desse bioma, tal como seu alto grau de endemismo.

É notável que exatamente o sul da Bahia, norte do Espírito Santo e litoral de Pernambuco são centros de endemismo na Mata Atlântica e os registros de pólendemonstram que tais regiões eram refúgios no final do Pleistoceno. Concomitante a relativa estabilidade no nordeste brasileiro, havia uma instabilidade climática à sudeste, embora isso parece não ter evitado endemismo de alguns táxons de anfíbios amplamente distribuídos. Essa instabilidade climática no sudeste e sul do Brasil tinha como consequência o surgimento de outras fitofisionomias que não eram florestadas: estudos paleoclimáticos utilizando pólen demonstram que o sudeste e sul passaram por inúmero momentos em que as florestas eram substituídas por formações abertas, como pradarias. Mais especificamente, a Mata de Araucária, chegou a ocorrer até a latitudes em torno de 19º (muito ao norte do que ocorre atualmente) durante as glaciações, sendo substituída pela floresta estacional semidecidual há cerca de 10.000 anos, quando o clima voltou a ficar mais quente.

A primeira leva de colonizadores humanos na região da Mata Atlântica data de aproximadamente 8-10 mil anos atrás, como evidenciado por achados arqueológicos em Lagoa Santa,Minas Gerais. Esses colonizadores já impactaram o ambiente com atividades agricultoras itinerantes (atividades agrícolas em sistemas agroflorestais, baseado em queimada e derrubada, principalmente do sub-bosque) após sua chegada, principalmente em regiões em que as queimadas para o cultivo eram mais frequentes, ocorrendo savanização.

Existe a hipótese de que os pampas surgiram decorrente das intensas queimadas provocadas por povos indígenas, já que vestígios mostram que a região era florestada há cerca de 5 mil anos. É provável que toda a mata da baixada litorânea tivesse sido, pelo menos uma vez, modificada para o cultivo pelos tupis. É interessante que uma das fitofisionomias mais conhecidas, a Mata de Araucária atual, pode ter surgido decorrente do manejo feito por agricultores itinerantes da Araucaria angustifolia. Também, a agricultura itinerante é praticada até hoje por vários grupos caiçaras e quilombolas do litoral do Rio de Janeiro e São Paulo.

Colonização Européia

Mata Atlântica em 1500
Estado Área de domínio
Alagoas 53%
Bahia 33%
Ceará 3%
Espírito Santo 100%
Goiás 3%
Mato Grosso do Sul 18%
Minas Gerais 46%
Paraíba 12%
Paraná 98%
Pernambuco 18%
Piauí 9%
Rio de Janeiro 100%
Rio Grande do Norte 6%
Rio Grande do Sul 48%
Santa Catarina 100%
São Paulo 68%
Sergipe 54%

Com a chegada dos portugueses, a partir de 1500, inicia-se uma nova fase da exploração da Mata Atlântica. O pau-brasil foi o principal alvo de extração e exportação dos exploradores que colonizaram a região, no início da colonização pelos europeus. O primeiro contrato comercial para a exploração do pau-brasil foi feito em 1502, o que levou o Brasil a ser conhecido como “Terra Brasilis”, ligando o nome do país à exploração dessa madeira avermelhada como brasa. Outras madeiras de valor também foram exploradas até a beira da extinção: tapinhoã, sucupiracanelacanjaranajacarandá,araribápequi, jenipaparana, peroba, urucurana e vinhático.

Além da exploração predatória dos recursos florestais, houve também um significativo comércio de exportação de couros e peles de onçasantas,cobrascapivarascotiaslontrasjacarésjaguatiricaspacasveados e outros animais, de penas e plumas e carapaças de tartarugas.

Floresta virgem às margens do rio Paraíba do Sul retratada por Rugendas cerca de 1835.
Nota-se que a colonização européia e posterior dizimação dos povos indígenas, acabou por interromper um processo de degradação da floresta por meio da agricultura itinerante dos tupis, pois acabou criando imensos espaços vazios, o que acabou contribuindo (embora não propositalmente) para a conservação da floresta primária e recuperação de muitas áreas secundárias: a extração do pau-brasil e os cultivos de cana-de-açúcar e trigo, embora extremamente degradadores em âmbito local, não foram preponderantes para a destruição da vegetação “globalmente”, que permaneceu conservada em grande parte de sua ocorrência até pelo menos, o século XIX.
Entretanto, não havia uma “consciência ecológica”, ou qualquer preocupação com o uso do solo, e cada vez mais, havia uma divisão clara entre o que era civilização e “mundo natural”, que passava, inclusive, a ser desprezado pelos “brancos”. Ao contrário do que havia ocorrido em suas colônias na Ásia, os portugueses não demonstravam grande interesse pela biota americana, com exceção de alguns jesuítas: este fato foi mudar a partir do século XIX, com a chegada do rei D. João VI ao Brasil em 1808, permitindo, inclusive, a entrada de cientistas que não eram portugueses. Mas, o incentivo da Coroa Portuguesa em se conhecer a Mata Atlântica era mais por motivos econômicos, do que por “curiosidade”: o objetivo era conhecer a região para que fosse possível fazer a introdução de espécies exóticas tropicais, vindas da África e Ásia.

A partir do século XVIII, há uma aceleração na devastação da floresta no Sudeste, principalmente devido ao ciclo do ouro e a criação de gado, inclusive, com a introdução de pastagens exóticas, o que deve ter destruído pelo menos, 30 mil km² da Mata Atlântica nesse século. Em Ouro Preto, por exemplo, a extração do ouro, além do desmatamento, provocou erosão e surgimento de inúmeras voçorocas.

Paradoxalmente, a extração de madeira no fim do século XVIII e início do século XIX para a construção de navios é que despertou um interesse conservacionista das florestas: na capitania de São Paulo, foram criadas reservas no litoral e toda uma legislação visando regulamentar a exploração do que passou a ser chamado de “floresta virgem”. Rodrigo de Sousa Coutinho delineou planos de como explorar a floresta de forma mais sustentável, embora isso causou furor nos madeireiros, pois ia de encontro a todos interesses econômicos por trás de uma exploração desenfreada da madeira pelas elites locais. Entretanto, tal “conservacionismo” era para atender os interesses de aumentar o poder bélico da Coroa.